Parte II
Não foi preciso muito esforço para fingir durante o velório e os dias que se seguiram. Os familiares e amigos mais próximos sabiam que o relacionamento deles não estava bem há tempos. Ele mesmo já vinha dizendo aos quatro ventos que pensava em se separar. O tiro certeiro, na nuca, e o carro abandonado nas ruelas de uma favela do outro lado da cidade, fizeram com que todos imaginassem que se tratava de um assalto. Não havia motivos para preocupação.
Depois de 10 meses começaram a aparecer em público juntos. Ninguém estranhou, já que os dois já eram conhecidos há tempos.
****
- O que você tanto falava com aquela puta?
- Puta? Você sabe que eu trabalhei com a Marta por seis anos. Somos amigos.
- Amigos iguais nós éramos na época do banco, quando você me fodia quase todos os dias?
- A diferença é que eu nunca trepei com a Marta.
- Se trepou não interessa. Me interessa é o agora.
- Uhm tá com ciuminho? Justo você sempre tão segura de si.
- Só tem uma coisa que eu prezo mais que minha liberdade: é o meu orgulho. Lembre-se disso antes de fazer alguma merda.
- Vai me matar também?
- Pra mim não faz diferença, mas agora eu quero é sair daqui. Me leva pro motel.
****
Era fácil para os dois resolverem seus pequenos problemas. Era ali, com ele entre suas pernas, que ela se sentia dona da situação.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Infinito Íngreme
Parte I
- Por que você fez isso?
- Ele me chamou de puta!
- E por isso você o mata?
- Pra você não é motivo suficiente?
- Não, mas é suficiente para eu saber que preciso tomar cuidado com você.
- Acho bom mesmo.
Envolve-o com suas pernas e sorri malignamente.
- Me fode na frente desse idiota.
- Você tem uns fetiches assustadores.
- Deve ser por isso que você não consegue me deixar.
- Quem disse que não consigo?
- Já tentou diversas vezes e onde está agora?
- Entre as suas pernas... o melhor lugar do mundo.
****
Colocaram o corpo dentro de um saco plástico, puseram-no no porta-malas do carro e o levaram a um terreno abandonado. Fitaram as chamas subirem num balanço macabro. E surpreenderam-se com o sorriso que lhes surgia no rosto.
- Eu só queria um motivo para me livrar dele.
- Mas precisava ser eu?
- Mais nobre impossível.
- Que gentil...
- Vamos embora daqui, eu ainda tenho que preparar meu ar de viúva triste.
- Por que você fez isso?
- Ele me chamou de puta!
- E por isso você o mata?
- Pra você não é motivo suficiente?
- Não, mas é suficiente para eu saber que preciso tomar cuidado com você.
- Acho bom mesmo.
Envolve-o com suas pernas e sorri malignamente.
- Me fode na frente desse idiota.
- Você tem uns fetiches assustadores.
- Deve ser por isso que você não consegue me deixar.
- Quem disse que não consigo?
- Já tentou diversas vezes e onde está agora?
- Entre as suas pernas... o melhor lugar do mundo.
****
Colocaram o corpo dentro de um saco plástico, puseram-no no porta-malas do carro e o levaram a um terreno abandonado. Fitaram as chamas subirem num balanço macabro. E surpreenderam-se com o sorriso que lhes surgia no rosto.
- Eu só queria um motivo para me livrar dele.
- Mas precisava ser eu?
- Mais nobre impossível.
- Que gentil...
- Vamos embora daqui, eu ainda tenho que preparar meu ar de viúva triste.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Acasos
Parte Final
-Oi, fique à vontade - falou Bruno levantando-se e puxando a cadeira gentilmente para Clarice se sentar.
Os dois começaram uma conversa animada, ainda que inicialmente supérflua. Banalidades sobre a vida, emprego... Clarice descobriu que Bruno trabalhava em uma editora que funcionava em dois andares de um prédio ali próximo. Mas não era só isso, ele também escrevia. Claro, ele não era um escritor famoso, mas isso fez com que Clarice ficasse mais interessada no homem a sua frente.
Bruno contou que foi justamente o interesse de Clarice por livros que chamou a atenção dele. Obviamente ela era uma mulher inteligente. "Eu gosto de pessoas inteligentes", disse com um sorriso nos lábios. Gorki, Tchékhov, Tolstoi, Gogol, Dostoiévisky... os russos, com toda sua complexidade e carga psicológica, eram os preferidos dele. Ela preferia os brasileiros e portugueses, mas a paixão pelas letras era o ponto em comum.
Enquanto falava, Clarice percebia o quanto Bruno prestava atenção em suas palavras e como ele olhava para sua boca. Por sua vez, ela fingia que aquilo não era nada e continuava falando.
Terminado o horário de almoço, despediram-se. “A gente podia tomar um café depois do expediente, o que você acha?” – perguntou Clarice, já sabendo a resposta. “Claro, eu saio um pouco antes e te espero então”.
A tarde passou lenta no escritório de Clarice. A chatice da rotina pesava sobre ela, mas era só lembrar do olhar atento de Bruno que suas energias se renovavam. Era 17h53 quando ela começou a recolher suas coisas e pegou sua bolsa. Desceu os cinco andares do prédio com apreensão. Bruno aguardava no saguão.
Foram até uma cafeteria próxima dali. Ambiente tranqüilo, mesmo naquele horário, já que a maioria preferia os bares com toda gritaria e álcool. A conversa animada, como no almoço, caminhava para assuntos mais íntimos. Clarice percebeu que estava fascinada pela inteligência dele. De repente a campainha estridente do celular de Bruno tocou. Educado, pediu licença e atendeu.
- Oi!? Oi, tudo bem sim. Já saí mas estou tomando um café com uma nova amiga, a Clarice – piscou para ela quando disse seu nome. – Não, não vou demorar não. Beijo pra você também! Clarice achou muito íntima aquele breve conversa mas preferiu não dizer nada. Foi Bruno que disse: “Era o Cláudio. Meu namorado”.
A breve história que Clarice escrevia mentalmente acabou ali, naquele instante.
-Oi, fique à vontade - falou Bruno levantando-se e puxando a cadeira gentilmente para Clarice se sentar.
Os dois começaram uma conversa animada, ainda que inicialmente supérflua. Banalidades sobre a vida, emprego... Clarice descobriu que Bruno trabalhava em uma editora que funcionava em dois andares de um prédio ali próximo. Mas não era só isso, ele também escrevia. Claro, ele não era um escritor famoso, mas isso fez com que Clarice ficasse mais interessada no homem a sua frente.
Bruno contou que foi justamente o interesse de Clarice por livros que chamou a atenção dele. Obviamente ela era uma mulher inteligente. "Eu gosto de pessoas inteligentes", disse com um sorriso nos lábios. Gorki, Tchékhov, Tolstoi, Gogol, Dostoiévisky... os russos, com toda sua complexidade e carga psicológica, eram os preferidos dele. Ela preferia os brasileiros e portugueses, mas a paixão pelas letras era o ponto em comum.
Enquanto falava, Clarice percebia o quanto Bruno prestava atenção em suas palavras e como ele olhava para sua boca. Por sua vez, ela fingia que aquilo não era nada e continuava falando.
Terminado o horário de almoço, despediram-se. “A gente podia tomar um café depois do expediente, o que você acha?” – perguntou Clarice, já sabendo a resposta. “Claro, eu saio um pouco antes e te espero então”.
A tarde passou lenta no escritório de Clarice. A chatice da rotina pesava sobre ela, mas era só lembrar do olhar atento de Bruno que suas energias se renovavam. Era 17h53 quando ela começou a recolher suas coisas e pegou sua bolsa. Desceu os cinco andares do prédio com apreensão. Bruno aguardava no saguão.
Foram até uma cafeteria próxima dali. Ambiente tranqüilo, mesmo naquele horário, já que a maioria preferia os bares com toda gritaria e álcool. A conversa animada, como no almoço, caminhava para assuntos mais íntimos. Clarice percebeu que estava fascinada pela inteligência dele. De repente a campainha estridente do celular de Bruno tocou. Educado, pediu licença e atendeu.
- Oi!? Oi, tudo bem sim. Já saí mas estou tomando um café com uma nova amiga, a Clarice – piscou para ela quando disse seu nome. – Não, não vou demorar não. Beijo pra você também! Clarice achou muito íntima aquele breve conversa mas preferiu não dizer nada. Foi Bruno que disse: “Era o Cláudio. Meu namorado”.
A breve história que Clarice escrevia mentalmente acabou ali, naquele instante.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Acasos
Parte II
Acordava e revirava-se na cama. O calor insuportável e o sono acumulado a deixava extremamente irritada. Olhou para o relógio e viu que ainda faltavam umas três horas até o dia clarear. Acendeu o abajur e pegou o livro que estava na bolsa. Naquele instante se lembrou do rapaz no restaurante. Não abriu o livro. Deitou-se novamente e ficou pensando naquela situação estranha. “Ele deve ter me visto nos dias anteriores lendo após o almoço”. Como se levasse um susto percebeu que um sorriso estava estampado em seu rosto. Aquilo a deixou espantada. Apagou o abajur e se acomodou na cama. Adormeceu com o sorriso.
Ao amanhecer, no trabalho, não pensou no rapaz do restaurante. O trabalho a deixou extremamente ocupada e Clarice acabou se atrasando para o almoço. Saiu quase que tropeçando nos degraus que davam para a rua. Quando chegou próximo ao restaurante lembrou-se de Bruno. Mas para ela aquele rosto e voz ainda não tinham nome. Mas uma coisa Clarice nunca teve: medo.
Entrou no restaurante decidida. Apesar de seu atraso, ainda estava no horário de almoço e o restaurante estava cheio novamente. Olhou para a mesma mesa onde se encontrara por acaso com Bruno. Um casal conversava animadamente no local. Forçou a vista tentando alcançar o fundo do salão. Bruno estava lá, de costas para a entrada do restaurante. Com um leve sorriso nos lábios Clarice caminhou com passos firmes em direção à mesa.
- Oi, posso me sentar?
Acordava e revirava-se na cama. O calor insuportável e o sono acumulado a deixava extremamente irritada. Olhou para o relógio e viu que ainda faltavam umas três horas até o dia clarear. Acendeu o abajur e pegou o livro que estava na bolsa. Naquele instante se lembrou do rapaz no restaurante. Não abriu o livro. Deitou-se novamente e ficou pensando naquela situação estranha. “Ele deve ter me visto nos dias anteriores lendo após o almoço”. Como se levasse um susto percebeu que um sorriso estava estampado em seu rosto. Aquilo a deixou espantada. Apagou o abajur e se acomodou na cama. Adormeceu com o sorriso.
Ao amanhecer, no trabalho, não pensou no rapaz do restaurante. O trabalho a deixou extremamente ocupada e Clarice acabou se atrasando para o almoço. Saiu quase que tropeçando nos degraus que davam para a rua. Quando chegou próximo ao restaurante lembrou-se de Bruno. Mas para ela aquele rosto e voz ainda não tinham nome. Mas uma coisa Clarice nunca teve: medo.
Entrou no restaurante decidida. Apesar de seu atraso, ainda estava no horário de almoço e o restaurante estava cheio novamente. Olhou para a mesma mesa onde se encontrara por acaso com Bruno. Um casal conversava animadamente no local. Forçou a vista tentando alcançar o fundo do salão. Bruno estava lá, de costas para a entrada do restaurante. Com um leve sorriso nos lábios Clarice caminhou com passos firmes em direção à mesa.
- Oi, posso me sentar?
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Acasos
Parte I
Clarice estava num daqueles dias em que o sexto sentido nos engana cruelmente. Num daqueles em que você jura que nada vai dar errado e não consegue sequer atravessar uma rua sem tomar susto. E foi atravessando a rua que Clarice esbarrou em Bruno. O olhar irritado que ela lançou a ele só o fez observá-la mais atentamente. E como ela era bonita... tinha um ar de sabedoria que emanava no seu jeito de andar, de mexer nos cabelos, na sua impaciência.
Ela não conseguiu fitá-lo com censura por muito tempo. Ele tinha um olhar doce e de admiração, mas como poderia admirá-la? Os dois trabalhavam em prédios vizinhos, embora não soubessem disso. Almoçavam comumente nos mesmos lugares. Ela nunca o observara detidamente. Mas ele ficava a admirá-la cada vez que a via terminar de almoçar, afastar o prato e abrir um livro. A cada semana um novo. Isso o fascinava. Aliás, nada o fascinava mais do que uma mulher inteligente (ao menos ela o parecia ser). Para ter duas horas de almoço, ela, provalmente, tinha uma jornada de trabalho de oito horas diárias. E como conseguia ler tanto? Se os brasileiros lêem em média dois livros ao ano, Clarice liam por muita gente. Bruno acompanhava cada reação. E a partir delas imaginava o desenrolar do enredo. Apreciava suas expressões de horror, asco, melancolia, surpresa... mas a sua preferida era a de pesar. Aquela na qual os olhos amendoados se enchiam de lágrimas ameaçadoras que nunca caíam. Ele chegara à conclusão de que preferia assim: ler livros nos olhos dela.
Quando não a tinha no seu ângulo de visão, Bruno a imaginava chegando em casa (só podia morar sozinha), tomando um banho, cantando ao chuveiro, vestindo uma roupa leve e se atirando no sofá com o livro da semana. Ela tinha um gosto literário invejável.
O acaso estava do lado de Bruno, não havia dúvidas. Em mais um dia de coincidência, o restaurante escolhido pelos dois estava lotado, por conta de um evento promovido por um hotel das redondezas. Clarice pediu para sentar-se à mesa com Bruno, não havia mesas vazias. Terminado o almoço em silêncio... Bruno disse que se retiraria, não queria atrapalhar sua leitura. Clarice ficou intrigada com o comentário. Como ele sabia que ela iria ler? Fitou longamente a porta por onde ele saíra, refletindo. Quando se deu conta estava atrasada, pegou sua bolsa e saiu, apressada.
Não dormiu bem aquela noite.
Clarice estava num daqueles dias em que o sexto sentido nos engana cruelmente. Num daqueles em que você jura que nada vai dar errado e não consegue sequer atravessar uma rua sem tomar susto. E foi atravessando a rua que Clarice esbarrou em Bruno. O olhar irritado que ela lançou a ele só o fez observá-la mais atentamente. E como ela era bonita... tinha um ar de sabedoria que emanava no seu jeito de andar, de mexer nos cabelos, na sua impaciência.
Ela não conseguiu fitá-lo com censura por muito tempo. Ele tinha um olhar doce e de admiração, mas como poderia admirá-la? Os dois trabalhavam em prédios vizinhos, embora não soubessem disso. Almoçavam comumente nos mesmos lugares. Ela nunca o observara detidamente. Mas ele ficava a admirá-la cada vez que a via terminar de almoçar, afastar o prato e abrir um livro. A cada semana um novo. Isso o fascinava. Aliás, nada o fascinava mais do que uma mulher inteligente (ao menos ela o parecia ser). Para ter duas horas de almoço, ela, provalmente, tinha uma jornada de trabalho de oito horas diárias. E como conseguia ler tanto? Se os brasileiros lêem em média dois livros ao ano, Clarice liam por muita gente. Bruno acompanhava cada reação. E a partir delas imaginava o desenrolar do enredo. Apreciava suas expressões de horror, asco, melancolia, surpresa... mas a sua preferida era a de pesar. Aquela na qual os olhos amendoados se enchiam de lágrimas ameaçadoras que nunca caíam. Ele chegara à conclusão de que preferia assim: ler livros nos olhos dela.
Quando não a tinha no seu ângulo de visão, Bruno a imaginava chegando em casa (só podia morar sozinha), tomando um banho, cantando ao chuveiro, vestindo uma roupa leve e se atirando no sofá com o livro da semana. Ela tinha um gosto literário invejável.
O acaso estava do lado de Bruno, não havia dúvidas. Em mais um dia de coincidência, o restaurante escolhido pelos dois estava lotado, por conta de um evento promovido por um hotel das redondezas. Clarice pediu para sentar-se à mesa com Bruno, não havia mesas vazias. Terminado o almoço em silêncio... Bruno disse que se retiraria, não queria atrapalhar sua leitura. Clarice ficou intrigada com o comentário. Como ele sabia que ela iria ler? Fitou longamente a porta por onde ele saíra, refletindo. Quando se deu conta estava atrasada, pegou sua bolsa e saiu, apressada.
Não dormiu bem aquela noite.
sábado, 26 de abril de 2008
Dez Anos
Final Alternativo
Surpreendentemente, ela se atrasara. Rodrigo começava a pensar que ela desistira. Resolveu esperar mais. Um carro parou a sua frente. Não era o carro dela, pensou. Carol baixou o vidro:
- Entra. Rápido.
Ele entrou. Mal havia fechado a porta, ela arrancou com velocidade.
- Você está bem?
- Vou ficar bem.
Ao entrar no quarto do motel, que ela nitidamente escolhera a dedo, Rodrigo beijou-a demoradamente. Olhou-a no fundo dos olhos e sentiu certa tristeza.
- Você tem algo a me dizer, Carol?
- Tenho sim.
- Eu gostarei de ouvir?
- Não.
- Como eu imaginei.
- Rodrigo, eu gosto muito de você. Muito mais do que posso e gostaria. Mas minha vida agora é outra. Tenho compromissos, responsabilidades. Não posso simplesmente largar tudo pra ficar com você.
- Você pode. Você não quer.
- Eu marquei esse encontro pra que nós nos despeçamos. Será a última vez. Quero guardar uma lembrança bonita de você.
Carol se aproximou e tentou beijá-lo. Rodrigo a afastou.
- Carol, assim eu não quero. Eu esperava mais que isso de você, mas se é o que podes me oferecer, eu dispenso.
Discou para a recepção.
- Por favor, um táxi para a suíte 307.
Surpreendentemente, ela se atrasara. Rodrigo começava a pensar que ela desistira. Resolveu esperar mais. Um carro parou a sua frente. Não era o carro dela, pensou. Carol baixou o vidro:
- Entra. Rápido.
Ele entrou. Mal havia fechado a porta, ela arrancou com velocidade.
- Você está bem?
- Vou ficar bem.
Ao entrar no quarto do motel, que ela nitidamente escolhera a dedo, Rodrigo beijou-a demoradamente. Olhou-a no fundo dos olhos e sentiu certa tristeza.
- Você tem algo a me dizer, Carol?
- Tenho sim.
- Eu gostarei de ouvir?
- Não.
- Como eu imaginei.
- Rodrigo, eu gosto muito de você. Muito mais do que posso e gostaria. Mas minha vida agora é outra. Tenho compromissos, responsabilidades. Não posso simplesmente largar tudo pra ficar com você.
- Você pode. Você não quer.
- Eu marquei esse encontro pra que nós nos despeçamos. Será a última vez. Quero guardar uma lembrança bonita de você.
Carol se aproximou e tentou beijá-lo. Rodrigo a afastou.
- Carol, assim eu não quero. Eu esperava mais que isso de você, mas se é o que podes me oferecer, eu dispenso.
Discou para a recepção.
- Por favor, um táxi para a suíte 307.
sábado, 19 de abril de 2008
Dez Anos
Parte Final
Cinco minutos antes do horário marcado o carro dela parou na esquina. Rodrigo sentiu as pernas tremerem e o estômago arder. Era como se algo estivesse se mexendo dentro dele. Deu risada quando se deu conta da situação. "Estou parecendo um garoto de 14 anos".
Carol buzinou duas vezes e abaixou um terço do vidro do carro. Ele só conseguiu ver os olhos negros brilhando. Entrou no carro. Ela olhava-o como se penetrasse em sua alma. Ficaram três segundos imóveis. Ele inclinou-se e a beijou na boca. "Carol você..." Ela o interrompeu colocando o dedo em sua boca "Não fala nada Rodrigo". Acelerou o carro.
Ele não conhecia aquele caminho por onde estavam indo, mas podia imaginar onde ela o estava levando. Conversaram pouco. Carol olhava a pista em sua frente e tentava encontrar o motivo por não ter feito isso antes, quando ele a chamou, há 10 anos atrás. Teve vergonha de seu orgulho que até então a guiara.
Rodrigo olhava pela janela e pensava quanto esperou para estar ali com ela. Quantas vezes tentou se reaproximar. Quantas vezes sentiu a porta se fechar em sua cara por puro despeito. Olhou para ela e tentou dissipar todos os outros pensamentos.
Não havia outro lugar possível senão aquele onde pararam. Eles estiveram ali quando transaram pela primeira vez.
"Rodrigo, me desculpa a minha covardia e meu orgulho. Eu quero ficar com você", disse enquanto o abraçava. Ela estava leve como há muito não se sentia. Foi preciso que uma década se passasse para ela perceber que tinha agido errado. Enquanto era abraçado, Rodrigo via em sua mente milhares de imagens como se fossem caleidoscópios girando em alta velocidade. Não sabia mais o que estava sentindo.
***
"É isso, me perdoa. Hoje eu sei o que fiz de errado. Vamos consertar isso, vamos ficar juntos. Meu casamento há muito que não existe mais. Sei que a Cibele vai sofrer com isso e pensar nela me dói, mas nós sabemos que todo mundo supera isso". Ela dizia quase como que se penitenciando. "Você sabe o quanto te chamei e te esperei. Antes e depois da nossa separação. Agora temos que fazer a coisa certa Carol". Despediram-se e ela prometeu resolver o seu lado da situação naquela semana. Era advogada, sabia o que fazer.
Em seu apartamento Rodrigo revirava velhas fotos, velhas cartas. Algumas que escreveu mas nunca mandou. Sobre a mesa da sala havia um envelope branco. Ele olhava como se ali estivesse um remédio. Ou a dose certa de sicuta. Pegou o celular e discou um número.
-Marcos, tudo bem? É o Rodrigo. Tô te ligando pra dar a resposta. É, vou aceitar sim. Recebi a passagem. Minhas coisas estão arrumadas". Desligou o telefone se sentindo um outro homem. Naquele envelope branco havia uma passagem aérea para Paris, onde foi convidado para trabalhar.
Lembrou de cada instante que passara com Carol horas atrás. Lembrou quantos anos esperou por ela e sentiu a vista turvar. Pegou um bloco e começou a escrever uma carta. Era a última.
"Carol, você não vai entender como eu tomei essa atitude depois de tudo, de tanto tempo. Mas esse é o problema, o tempo. Esperei tempo demais, tanto que eu não percebi passar. Sua vida seguiu e eu esperei. Agora descobri que quem eu esperava ficou presa anos atrás. Presa nas minhas memórias. Seja Feliz."
Aproveitou a presença da diarista e entregou a ela a carta. Orientou-a para colocar no correio na manhã seguinte, no horário em que ele estaria no aeroporto rumo à Cidade Luz.
Cinco minutos antes do horário marcado o carro dela parou na esquina. Rodrigo sentiu as pernas tremerem e o estômago arder. Era como se algo estivesse se mexendo dentro dele. Deu risada quando se deu conta da situação. "Estou parecendo um garoto de 14 anos".
Carol buzinou duas vezes e abaixou um terço do vidro do carro. Ele só conseguiu ver os olhos negros brilhando. Entrou no carro. Ela olhava-o como se penetrasse em sua alma. Ficaram três segundos imóveis. Ele inclinou-se e a beijou na boca. "Carol você..." Ela o interrompeu colocando o dedo em sua boca "Não fala nada Rodrigo". Acelerou o carro.
Ele não conhecia aquele caminho por onde estavam indo, mas podia imaginar onde ela o estava levando. Conversaram pouco. Carol olhava a pista em sua frente e tentava encontrar o motivo por não ter feito isso antes, quando ele a chamou, há 10 anos atrás. Teve vergonha de seu orgulho que até então a guiara.
Rodrigo olhava pela janela e pensava quanto esperou para estar ali com ela. Quantas vezes tentou se reaproximar. Quantas vezes sentiu a porta se fechar em sua cara por puro despeito. Olhou para ela e tentou dissipar todos os outros pensamentos.
Não havia outro lugar possível senão aquele onde pararam. Eles estiveram ali quando transaram pela primeira vez.
"Rodrigo, me desculpa a minha covardia e meu orgulho. Eu quero ficar com você", disse enquanto o abraçava. Ela estava leve como há muito não se sentia. Foi preciso que uma década se passasse para ela perceber que tinha agido errado. Enquanto era abraçado, Rodrigo via em sua mente milhares de imagens como se fossem caleidoscópios girando em alta velocidade. Não sabia mais o que estava sentindo.
***
"É isso, me perdoa. Hoje eu sei o que fiz de errado. Vamos consertar isso, vamos ficar juntos. Meu casamento há muito que não existe mais. Sei que a Cibele vai sofrer com isso e pensar nela me dói, mas nós sabemos que todo mundo supera isso". Ela dizia quase como que se penitenciando. "Você sabe o quanto te chamei e te esperei. Antes e depois da nossa separação. Agora temos que fazer a coisa certa Carol". Despediram-se e ela prometeu resolver o seu lado da situação naquela semana. Era advogada, sabia o que fazer.
Em seu apartamento Rodrigo revirava velhas fotos, velhas cartas. Algumas que escreveu mas nunca mandou. Sobre a mesa da sala havia um envelope branco. Ele olhava como se ali estivesse um remédio. Ou a dose certa de sicuta. Pegou o celular e discou um número.
-Marcos, tudo bem? É o Rodrigo. Tô te ligando pra dar a resposta. É, vou aceitar sim. Recebi a passagem. Minhas coisas estão arrumadas". Desligou o telefone se sentindo um outro homem. Naquele envelope branco havia uma passagem aérea para Paris, onde foi convidado para trabalhar.
Lembrou de cada instante que passara com Carol horas atrás. Lembrou quantos anos esperou por ela e sentiu a vista turvar. Pegou um bloco e começou a escrever uma carta. Era a última.
"Carol, você não vai entender como eu tomei essa atitude depois de tudo, de tanto tempo. Mas esse é o problema, o tempo. Esperei tempo demais, tanto que eu não percebi passar. Sua vida seguiu e eu esperei. Agora descobri que quem eu esperava ficou presa anos atrás. Presa nas minhas memórias. Seja Feliz."
Aproveitou a presença da diarista e entregou a ela a carta. Orientou-a para colocar no correio na manhã seguinte, no horário em que ele estaria no aeroporto rumo à Cidade Luz.
sexta-feira, 21 de março de 2008
Dez Anos
Parte III
Ele foi para casa no piloto automático. Não estava em si. Como pode um dia tão despretensioso terminar daquele jeito? Sim, porque ainda era cedo, mas o dia havia terminado para ele. Não queria mais saber de nada, só de lembrar do cheiro que se despreendia dos cabelos dela, do hálito tão próximo e tão efêmero. Se autoflagelava por não ter ido atrás dela. No entanto, talvez tenha sido melhor assim. Ele agora tinha certeza de que não sofrera sozinho aquele tempo todo. Por que ela era tão racional? Por que não se atirava nos seus braços? Por que eles não saíram daquele restaurante de mãos dadas? O marido... o marido dela deveria ser um imbecil. Nenhum homem estava à altura daquela mulher. Só ele. Ele sabia das indecisões dela, dos surtos de mulher fatal, dos momentos de menina desprotegida e sabia exatamente o que ela queria ouvir em cada um desses momentos. Só ele servia para ela. No mais, qualquer homem com o qual ela se envolvesse a faria infeliz. Tinha tanta certeza disso quanto de que há vida após a morte... E isso o entristeceu.
A rotina o irritava. Dias se passaram e o acaso não fora camarada. Seu celular toca. Número não identificado.
- Alô?
Silêncio.
- Alô? Alô? Carol, é você?
- Eu preciso ver você.
- Que bom que você ligou. Eu já estava desacreditando que você o faria.
- Rodrigo, eu preciso te encontrar.
- Quando?
- Me encontra em uma hora naquele mesmo restaurante. Mas não entre, não vamos ficar lá.
Ela havia desligado. Rodrigo saiu, ansioso. Apanhou um táxi. A voz dela carregava um tom grave. Quase assustador. Teria que cruzar a cidade para encontrá-la. Ele passara, entretanto, a vida inteira sem viver esperando apenas por isso. Não importando o que ela diria, desde que viesse de sua boca e não da imaginação dele, que já criara tantas desverdades.
O trajeto parecera mais longo do que era de fato. Aquela cidade parecia comportar o tamanho do mundo em si. Suas mãos suavam. O ar não era suficiente para sua respiração apressada e impaciente. A gravidade da voz dela ao telefone o intrigara.
Deu ao motorista uma nota muito maior que o valor da corrida e desceu do carro sem esperar o troco. Chegara quinze minutos antes do horário marcado. Ela era pontual como uma britânica. Aquele seria o quarto de hora mais longo de sua vida.
Ele foi para casa no piloto automático. Não estava em si. Como pode um dia tão despretensioso terminar daquele jeito? Sim, porque ainda era cedo, mas o dia havia terminado para ele. Não queria mais saber de nada, só de lembrar do cheiro que se despreendia dos cabelos dela, do hálito tão próximo e tão efêmero. Se autoflagelava por não ter ido atrás dela. No entanto, talvez tenha sido melhor assim. Ele agora tinha certeza de que não sofrera sozinho aquele tempo todo. Por que ela era tão racional? Por que não se atirava nos seus braços? Por que eles não saíram daquele restaurante de mãos dadas? O marido... o marido dela deveria ser um imbecil. Nenhum homem estava à altura daquela mulher. Só ele. Ele sabia das indecisões dela, dos surtos de mulher fatal, dos momentos de menina desprotegida e sabia exatamente o que ela queria ouvir em cada um desses momentos. Só ele servia para ela. No mais, qualquer homem com o qual ela se envolvesse a faria infeliz. Tinha tanta certeza disso quanto de que há vida após a morte... E isso o entristeceu.
A rotina o irritava. Dias se passaram e o acaso não fora camarada. Seu celular toca. Número não identificado.
- Alô?
Silêncio.
- Alô? Alô? Carol, é você?
- Eu preciso ver você.
- Que bom que você ligou. Eu já estava desacreditando que você o faria.
- Rodrigo, eu preciso te encontrar.
- Quando?
- Me encontra em uma hora naquele mesmo restaurante. Mas não entre, não vamos ficar lá.
Ela havia desligado. Rodrigo saiu, ansioso. Apanhou um táxi. A voz dela carregava um tom grave. Quase assustador. Teria que cruzar a cidade para encontrá-la. Ele passara, entretanto, a vida inteira sem viver esperando apenas por isso. Não importando o que ela diria, desde que viesse de sua boca e não da imaginação dele, que já criara tantas desverdades.
O trajeto parecera mais longo do que era de fato. Aquela cidade parecia comportar o tamanho do mundo em si. Suas mãos suavam. O ar não era suficiente para sua respiração apressada e impaciente. A gravidade da voz dela ao telefone o intrigara.
Deu ao motorista uma nota muito maior que o valor da corrida e desceu do carro sem esperar o troco. Chegara quinze minutos antes do horário marcado. Ela era pontual como uma britânica. Aquele seria o quarto de hora mais longo de sua vida.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Dez Anos
Parte II
"Oi". Ela respondeu sem conseguir pronunciar o nome dele. Aquele nome esteve escondido por tantos anos em uma velha caixa de sapatos, local onde ela guardava as cartas e cartões que recebeu dele desde quando se conheceram. Durante alguns instantes ficaram parados apenas se olhando. Eles não sabiam como agir.
Como se algo tivesse sido ligado de repente dentro dele, ele subiu os dois degraus que os separavam e a abraçou. Ela se assustou e por quase um segundo tentou se desvencilhar, mas quando sentiu a proximação daquele corpo ela simplesmente rendeu-se. Ela pode sentir o calor que emanava dele correndo em suas veias, aquecendo seu sangue novamente.
De súbito colocou-lhe as duas mãos nos ombros e o afastou. "Oi Rodrigo". Finalmente conseguiu dizer o nome dele, mas não sem esforço.
- Tá tudo bem com você Carol?
- Tá sim, e você como está?
- Estou bem também, algumas coisas mudaram pra melhor. Então se tornou advogada?
- Pois é, consegui. Lembra que eu queria fazer faculdade de direito?
- Claro. Eu lembro de tudo sobre você. Eu nunca esqueci nada sobre você.
Ruborizou-se e isso a deixou um pouco irritada. Tempos atrás era ela que tinha o poder de deixá-lo envergonhado. Fez-se aquele silêncio horrível, pesado.
- Você tá saindo, vai almoçar?
- Vou sim, estava em uma reunião até agora.
- Quer ir almoçar comigo?
- Mas você não tá trabalhando?
- Tô, mas já fiz as fotos, já estou liberado.
- Então vamos. É bom te encontrar - ela disse e deu um sorriso que fez ele tremer. Lembrou-se que às vezes ela dava um sorriso diferente, que parecia ser só dele.
Os dois sairam lado a lado e entraram no carro dela. Dentro, um misto de curiosidade, saudade e uma certa distância cerimonial fez o clima ficar falso. Foram falando de assuntos sem importância. Apesar da vontade, nenhum dos dois tentou saber da vida pessoal do outro durante o curto percurso até o restaurante. Só quando já estavam sentados à mesa que ele conseguiu falar.
- Você se casou com...
- Sim, me casei com ele. E você tá casado?
- Não - respondeu mostrando a mão esquerda sem nenhuma aliança - e tem filhos?
- Uma menina, Cibele - Ela disse e olhou bem nos fundos dos olhos dele. Ela sabia que ele queria ter uma filha com aquele nome. Por isso mesmo ela o escolheu quando nasceu sua filha.
- Você deveria ter me encontrado quando eu pedi. Todas as vezes que eu pedi.
- Ei sei quais foram meus erros Rodrigo, por favor não me torture com eles novamente.
- Esses anos todos eu senti sua falta - ele disse olhando para o lado e quando terminou a frase encarou firmemente os olhos negros que o fitavam. Ela sorriu e novamente ele se lembrou da música e cantarolou: "Nobody knows it, but you've got a secret smile, and you use it only for me..."
A vontade de abraçá-lo foi imensa. Ela olhou para a aliança e lembrou dos últimos seis anos de brigas, discussões e duas suspeitas de traição. Como se um raio caísse em sua cabeça, pegou a bolsa e simplesmente disse "preciso ir embora". Levantou-se apressada e saiu, não sem antes dar um beijo na boca de Rodrigo, sem que ele esperasse e sem ter tempo de dar continuidade ao ato.
Rodrigo ficou olhando ela sair pelo corredor do restaurante. Deu um último gole em sua bebida e chamou o garçom. "A conta por favor".
Com uma mistura de euforia e tristeza, Carol entrou no carro e fez três tentativas até conseguir encaixar a chave para ligar o carro. Não conseguia fixar seu pensamento em nada. Tudo passava rápido e de forma desordenada, como a paisagem pela lateral do carro. Olhou no banco do passageiro e viu um papel. Era o número do celular de Rodrigo.
"Oi". Ela respondeu sem conseguir pronunciar o nome dele. Aquele nome esteve escondido por tantos anos em uma velha caixa de sapatos, local onde ela guardava as cartas e cartões que recebeu dele desde quando se conheceram. Durante alguns instantes ficaram parados apenas se olhando. Eles não sabiam como agir.
Como se algo tivesse sido ligado de repente dentro dele, ele subiu os dois degraus que os separavam e a abraçou. Ela se assustou e por quase um segundo tentou se desvencilhar, mas quando sentiu a proximação daquele corpo ela simplesmente rendeu-se. Ela pode sentir o calor que emanava dele correndo em suas veias, aquecendo seu sangue novamente.
De súbito colocou-lhe as duas mãos nos ombros e o afastou. "Oi Rodrigo". Finalmente conseguiu dizer o nome dele, mas não sem esforço.
- Tá tudo bem com você Carol?
- Tá sim, e você como está?
- Estou bem também, algumas coisas mudaram pra melhor. Então se tornou advogada?
- Pois é, consegui. Lembra que eu queria fazer faculdade de direito?
- Claro. Eu lembro de tudo sobre você. Eu nunca esqueci nada sobre você.
Ruborizou-se e isso a deixou um pouco irritada. Tempos atrás era ela que tinha o poder de deixá-lo envergonhado. Fez-se aquele silêncio horrível, pesado.
- Você tá saindo, vai almoçar?
- Vou sim, estava em uma reunião até agora.
- Quer ir almoçar comigo?
- Mas você não tá trabalhando?
- Tô, mas já fiz as fotos, já estou liberado.
- Então vamos. É bom te encontrar - ela disse e deu um sorriso que fez ele tremer. Lembrou-se que às vezes ela dava um sorriso diferente, que parecia ser só dele.
Os dois sairam lado a lado e entraram no carro dela. Dentro, um misto de curiosidade, saudade e uma certa distância cerimonial fez o clima ficar falso. Foram falando de assuntos sem importância. Apesar da vontade, nenhum dos dois tentou saber da vida pessoal do outro durante o curto percurso até o restaurante. Só quando já estavam sentados à mesa que ele conseguiu falar.
- Você se casou com...
- Sim, me casei com ele. E você tá casado?
- Não - respondeu mostrando a mão esquerda sem nenhuma aliança - e tem filhos?
- Uma menina, Cibele - Ela disse e olhou bem nos fundos dos olhos dele. Ela sabia que ele queria ter uma filha com aquele nome. Por isso mesmo ela o escolheu quando nasceu sua filha.
- Você deveria ter me encontrado quando eu pedi. Todas as vezes que eu pedi.
- Ei sei quais foram meus erros Rodrigo, por favor não me torture com eles novamente.
- Esses anos todos eu senti sua falta - ele disse olhando para o lado e quando terminou a frase encarou firmemente os olhos negros que o fitavam. Ela sorriu e novamente ele se lembrou da música e cantarolou: "Nobody knows it, but you've got a secret smile, and you use it only for me..."
A vontade de abraçá-lo foi imensa. Ela olhou para a aliança e lembrou dos últimos seis anos de brigas, discussões e duas suspeitas de traição. Como se um raio caísse em sua cabeça, pegou a bolsa e simplesmente disse "preciso ir embora". Levantou-se apressada e saiu, não sem antes dar um beijo na boca de Rodrigo, sem que ele esperasse e sem ter tempo de dar continuidade ao ato.
Rodrigo ficou olhando ela sair pelo corredor do restaurante. Deu um último gole em sua bebida e chamou o garçom. "A conta por favor".
Com uma mistura de euforia e tristeza, Carol entrou no carro e fez três tentativas até conseguir encaixar a chave para ligar o carro. Não conseguia fixar seu pensamento em nada. Tudo passava rápido e de forma desordenada, como a paisagem pela lateral do carro. Olhou no banco do passageiro e viu um papel. Era o número do celular de Rodrigo.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Dez anos
Parte I
A reunião durou toda a manhã. E como sempre, foi cansativa e irritante. O relógio marcava 13h47 quando finalmente chegou à portaria do prédio da OAB. Do saguão, avistou uma movimentação nas escadarias externas do prédio. Repórteres, cinegrafistas e fotógrafos se espremiam enquanto um representante da Ordem dava declarações sobre um exame cancelado devido ao baixo desempenho dos participantes.
De repente seus olhos negros avistaram naquela multidão um rosto conhecido. Parou por alguns segundos que lhe pareceram eternos. Há dez anos eles não se viam. Ela já tinha visto seu trabalho no jornal, seu nome sempre ali, no canto direito superior da fotografia.
Em uma fração de segundo a história dos dois passou em sua frente. Lembrou do modo inusitado como se conheceram, do flerte que virou namoro, do relacionamento que durou poucos meses, do amor que nunca acabou.
Sentia o estômago queimando e as pernas tremendo. Não podia ficar ali, parada no saguão do prédio. Engoliu a seco, jogou seus cabelos para trás e seguiu firme em direção à porta.
Mesmo concentrado na movimentação, tirou a câmera do campo de visão quando viu no retângulo do visor aqueles traços que o acompanham há uma década. Todo o falatório, os disparos das máquinas, as perguntas dos jornalistas, tudo ao redor emudeceu. Se afastou da movimentação e ficou parado, dois degraus abaixo dela, com a máquina pendurada no pescoço.
"Oi Carol". Ela continuava linda. Dizer aquele nome, após dez anos, lhe trouxe sensações que achou que nunca mais sentiria. O tempo parou.
A reunião durou toda a manhã. E como sempre, foi cansativa e irritante. O relógio marcava 13h47 quando finalmente chegou à portaria do prédio da OAB. Do saguão, avistou uma movimentação nas escadarias externas do prédio. Repórteres, cinegrafistas e fotógrafos se espremiam enquanto um representante da Ordem dava declarações sobre um exame cancelado devido ao baixo desempenho dos participantes.
De repente seus olhos negros avistaram naquela multidão um rosto conhecido. Parou por alguns segundos que lhe pareceram eternos. Há dez anos eles não se viam. Ela já tinha visto seu trabalho no jornal, seu nome sempre ali, no canto direito superior da fotografia.
Em uma fração de segundo a história dos dois passou em sua frente. Lembrou do modo inusitado como se conheceram, do flerte que virou namoro, do relacionamento que durou poucos meses, do amor que nunca acabou.
Sentia o estômago queimando e as pernas tremendo. Não podia ficar ali, parada no saguão do prédio. Engoliu a seco, jogou seus cabelos para trás e seguiu firme em direção à porta.
Mesmo concentrado na movimentação, tirou a câmera do campo de visão quando viu no retângulo do visor aqueles traços que o acompanham há uma década. Todo o falatório, os disparos das máquinas, as perguntas dos jornalistas, tudo ao redor emudeceu. Se afastou da movimentação e ficou parado, dois degraus abaixo dela, com a máquina pendurada no pescoço.
"Oi Carol". Ela continuava linda. Dizer aquele nome, após dez anos, lhe trouxe sensações que achou que nunca mais sentiria. O tempo parou.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
O espectador
Última Parte
Algum tempo depois, Álvaro acorda numa cama de hospital. Olha-se. Está bastante machucado.
- Não se mexa, pode ser pior.
Era ela. Como a voz daquela mulher podia ser ainda mais bonita do que era ao telefone? Era mais doce.
- Que lugar é esse?
- É o pronto-socorro em que eu trabalho.
- Você me trouxe?
- Sozinha? Eu não conseguiria. Algumas pessoas ajudaram.
- Obrigado, muito obrigado mesmo.
Ela esboçou um sorriso tímido.
- Eu sou Álvaro.
- Eu sei.
- Sabe?
- Sei sim. Você se acha mesmo tão discreto quando me segue e observa todos os dias?
Ele enrubesceu.
- Eu não sei o que dizer. Acho que lhe devo desculpas...
- Não, não. É bom às vezes se sentir objeto de atenção de alguém com tanto zelo.
- Você é tão linda que eu não consigo tirar os olhos de você. Trabalhar pra mim é sempre um suplício, porque é quando não posso acompanhar a sua rotina.
- Não fale agora, se recupere primeiro. Depois falaremos disso.
Lavínia se mudara para a casa de Álvaro para cuidar de sua recuperação. Foram duas semanas de encantamento, ele a olhava com adoração. A presença dela imprimira à sua casa tanta graça e poesia que chegava a desejar nunca mais se recuperar.
Dias depois, ele então se deu conta de que o amor que sentia por Lavínia era algo que transcendia a carne. Ela era divina e, como tal, sagrada. Em nenhum momento se sentira excitado fisicamente com os toques dela em seu corpo para fazer curativos ou perguntar se ainda doía algo. Sentiria isso como um desrespeito. Queria-a casta, mesmo sabendo que já não o era. Não a violaria. Não a invadiria com sussurros e mãos ofegantes, para isso existiam as mulheres de esquina. Não a queria para si. Queria-a distante, precisava dela como antes: inatingível.
- Você parece melhor. Bem melhor.
- É... me sinto bem.
- Acho que já posso ir então.
- Pode sim. Fique tranqüila.
- Certo. Então... até mais.
- Até. Muito obrigada pelos cuidados todos. Nada que eu faça ou diga será suficiente pra agradecer.
- Não foi nada.
Lavínia, ao entrar no elevador, chora. E diz para si: eu não queria gratidão, queria apenas que você não me deixasse ir...
Algum tempo depois, Álvaro acorda numa cama de hospital. Olha-se. Está bastante machucado.
- Não se mexa, pode ser pior.
Era ela. Como a voz daquela mulher podia ser ainda mais bonita do que era ao telefone? Era mais doce.
- Que lugar é esse?
- É o pronto-socorro em que eu trabalho.
- Você me trouxe?
- Sozinha? Eu não conseguiria. Algumas pessoas ajudaram.
- Obrigado, muito obrigado mesmo.
Ela esboçou um sorriso tímido.
- Eu sou Álvaro.
- Eu sei.
- Sabe?
- Sei sim. Você se acha mesmo tão discreto quando me segue e observa todos os dias?
Ele enrubesceu.
- Eu não sei o que dizer. Acho que lhe devo desculpas...
- Não, não. É bom às vezes se sentir objeto de atenção de alguém com tanto zelo.
- Você é tão linda que eu não consigo tirar os olhos de você. Trabalhar pra mim é sempre um suplício, porque é quando não posso acompanhar a sua rotina.
- Não fale agora, se recupere primeiro. Depois falaremos disso.
Lavínia se mudara para a casa de Álvaro para cuidar de sua recuperação. Foram duas semanas de encantamento, ele a olhava com adoração. A presença dela imprimira à sua casa tanta graça e poesia que chegava a desejar nunca mais se recuperar.
Dias depois, ele então se deu conta de que o amor que sentia por Lavínia era algo que transcendia a carne. Ela era divina e, como tal, sagrada. Em nenhum momento se sentira excitado fisicamente com os toques dela em seu corpo para fazer curativos ou perguntar se ainda doía algo. Sentiria isso como um desrespeito. Queria-a casta, mesmo sabendo que já não o era. Não a violaria. Não a invadiria com sussurros e mãos ofegantes, para isso existiam as mulheres de esquina. Não a queria para si. Queria-a distante, precisava dela como antes: inatingível.
- Você parece melhor. Bem melhor.
- É... me sinto bem.
- Acho que já posso ir então.
- Pode sim. Fique tranqüila.
- Certo. Então... até mais.
- Até. Muito obrigada pelos cuidados todos. Nada que eu faça ou diga será suficiente pra agradecer.
- Não foi nada.
Lavínia, ao entrar no elevador, chora. E diz para si: eu não queria gratidão, queria apenas que você não me deixasse ir...
sábado, 16 de fevereiro de 2008
O espectador
Parte II
Eram oito horas da manhã quando o relógio ao lado da cama despertou. Era um desses despertadores baratos, de camelôs, com um alarme alto, estridente e irritante. Levantou-se agitado. Correu ao banheiro, tomou um banho rápido e se vestiu. Iria acompanhá-la até o serviço.
Graças aos trocados e à cerveja paga ao zelador, Álvaro também descobrira onde Lavínia trabalhava. O local era perto e por isso ela percorria o caminho de seu apartamento até o emprego a pé, quando as manhãs eram claras e frescas como aquela.
Esperou do outro lado da avenida próximo ao prédio dela. Não demorou muito para Lavínia aparecer na esquina. Estava atrasada e caminhava a passos firmes e rápidos. O coração de Álvaro bateu acelerado e sem saber ao certo o que fazer foi acompanhando sua paixão pelo outro lado da via.
Enquanto andava sem tirar os olhos de Lavínia, em sua cabeça criava dezenas de situações, centenas de frases e respostas, tentando achar alguma que pudesse funcionar sem fazer com que a aproximação parecesse forçada, ou que ele parecesse um idiota.
Concluiu que primeiro deveria se aproximar. Conferiu no temporizador do semáfaro. O sinal fecharia para os automóveis em três segundos. Assim que o mostrador zerou, avançou pela avenida para chegar até Lavínia. Álvaro dera apenas cinco passos na avenida quando uma moto, em alta velocidade, bateu em seu corpo e o arremeçou alguns metros.
Atordoado ele abre os olhos e vê uma multidão ao seu redor. Percebe que quem está segurando sua cabeça e evitando que se mexa é uma enfermeira. Lavínia era enfermeira. A dor que sentia naquele momento não era forte, mesmo se estivesse sofrendo não se importaria. Tentou esboçar um sorriso para o rosto preocupado que o olhava do alto.
Ao redor os transeuntes nervosos, falando alto e gesticulando, ligando de celulares para polícia, bombeiros, hospital. "Não se mexe, eu sou enfermeira e já chamei a ambulância, você vai ficar bem", disse Lavínia com aflição na voz.
Álvaro não tinha conseguido elaborar nenhum plano, mas ironicamente o que ele mais queria tinha acontecido. Ouviu ao longe a sirene das ambulâncias. Mirou os olhos negros de Lavínia e desmaiou.
Eram oito horas da manhã quando o relógio ao lado da cama despertou. Era um desses despertadores baratos, de camelôs, com um alarme alto, estridente e irritante. Levantou-se agitado. Correu ao banheiro, tomou um banho rápido e se vestiu. Iria acompanhá-la até o serviço.
Graças aos trocados e à cerveja paga ao zelador, Álvaro também descobrira onde Lavínia trabalhava. O local era perto e por isso ela percorria o caminho de seu apartamento até o emprego a pé, quando as manhãs eram claras e frescas como aquela.
Esperou do outro lado da avenida próximo ao prédio dela. Não demorou muito para Lavínia aparecer na esquina. Estava atrasada e caminhava a passos firmes e rápidos. O coração de Álvaro bateu acelerado e sem saber ao certo o que fazer foi acompanhando sua paixão pelo outro lado da via.
Enquanto andava sem tirar os olhos de Lavínia, em sua cabeça criava dezenas de situações, centenas de frases e respostas, tentando achar alguma que pudesse funcionar sem fazer com que a aproximação parecesse forçada, ou que ele parecesse um idiota.
Concluiu que primeiro deveria se aproximar. Conferiu no temporizador do semáfaro. O sinal fecharia para os automóveis em três segundos. Assim que o mostrador zerou, avançou pela avenida para chegar até Lavínia. Álvaro dera apenas cinco passos na avenida quando uma moto, em alta velocidade, bateu em seu corpo e o arremeçou alguns metros.
Atordoado ele abre os olhos e vê uma multidão ao seu redor. Percebe que quem está segurando sua cabeça e evitando que se mexa é uma enfermeira. Lavínia era enfermeira. A dor que sentia naquele momento não era forte, mesmo se estivesse sofrendo não se importaria. Tentou esboçar um sorriso para o rosto preocupado que o olhava do alto.
Ao redor os transeuntes nervosos, falando alto e gesticulando, ligando de celulares para polícia, bombeiros, hospital. "Não se mexe, eu sou enfermeira e já chamei a ambulância, você vai ficar bem", disse Lavínia com aflição na voz.
Álvaro não tinha conseguido elaborar nenhum plano, mas ironicamente o que ele mais queria tinha acontecido. Ouviu ao longe a sirene das ambulâncias. Mirou os olhos negros de Lavínia e desmaiou.
domingo, 10 de fevereiro de 2008
O espectador
Parte I
Observava-a há anos. Via entrar e sair homens de sua vida. Não achava nenhum deles à altura daquela mulher. Conhecia cada centímetro do seu corpo. Nunca teve certeza se a cortina aberta significava distração ou um convite. Ela já o flagrara olhando em direção a sua janela. Não parecera ofendida, mas também não dera indícios de se agradar, lisonjear. As saídas com os amigos pareciam tão desinteressantes diante da possibilidade de vê-la se dirigir ao banheiro cantando ao chegar do trabalho. E depois, em um robe, abrir uma garrafa de vinho, se deitar no sofá da sala e abrir um livro sobre as coxas cobertas pela seda. Não tinha, em sua memória, registro de cena mais sensual que aquela. Ela devia ter ciência disso.
Virara ao longo dos anos, um espectador da vida de Lavínia. Descobrira o nome através do porteiro corrupto do prédio dela. Deve ter pago uma quantia irrisória por essa informação e por tantas outras. Já não se contentava em observá-la apenas pela janela. Descobrira seus horários, rotina, itinerário.
O momento em que se sentiu mais ousado foi quando ligou para a casa dela. Queria apenas ouvir sua voz. E era linda, como ele esperava. Feminina e forte. Simulara um engano. Precisava de mais que um simples "alô".
Depois que parou seus olhos em Lavínia, começou a acreditar que a perfeição existe.
Após cinco anos de platonismo, Álvaro decidiu criar uma circunstância favorável à aproximação. Ficava nervoso só de imaginar.
Olhou o relógio: quatro e meia da manhã. Precisava de um plano. Adormeceu.
Observava-a há anos. Via entrar e sair homens de sua vida. Não achava nenhum deles à altura daquela mulher. Conhecia cada centímetro do seu corpo. Nunca teve certeza se a cortina aberta significava distração ou um convite. Ela já o flagrara olhando em direção a sua janela. Não parecera ofendida, mas também não dera indícios de se agradar, lisonjear. As saídas com os amigos pareciam tão desinteressantes diante da possibilidade de vê-la se dirigir ao banheiro cantando ao chegar do trabalho. E depois, em um robe, abrir uma garrafa de vinho, se deitar no sofá da sala e abrir um livro sobre as coxas cobertas pela seda. Não tinha, em sua memória, registro de cena mais sensual que aquela. Ela devia ter ciência disso.
Virara ao longo dos anos, um espectador da vida de Lavínia. Descobrira o nome através do porteiro corrupto do prédio dela. Deve ter pago uma quantia irrisória por essa informação e por tantas outras. Já não se contentava em observá-la apenas pela janela. Descobrira seus horários, rotina, itinerário.
O momento em que se sentiu mais ousado foi quando ligou para a casa dela. Queria apenas ouvir sua voz. E era linda, como ele esperava. Feminina e forte. Simulara um engano. Precisava de mais que um simples "alô".
Depois que parou seus olhos em Lavínia, começou a acreditar que a perfeição existe.
Após cinco anos de platonismo, Álvaro decidiu criar uma circunstância favorável à aproximação. Ficava nervoso só de imaginar.
Olhou o relógio: quatro e meia da manhã. Precisava de um plano. Adormeceu.
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